Moyses Marques - Nomes de Favela
Em uma época que samba e pagode são pasteurizados em embalagens "longa vida" Moyseis Marques reiventa o samba de raiz com poesia e harmonia.
Moyseis por Ruy Castro**
Moyseis Marques tem apenas trinta anos, mas sambistas como ele não devem ser medidos por suas idades cronológicas. Como continuadores de uma tradição, têm a idade dessa tradição. Parecem trazer dentro deles a herança, o eco, a lembrança de rodas de samba ancestrais, em remotas biroscas do Estácio ou da Cidade Nova, do tempo em que as coisas estavam realmente começando e seus praticantes se chamavam Newton, Ismael, Brancura, Bide ou Marçal. A filiação musical de Moyseis e sua identificação melódica e rítmica com o Estácio parecem tão nítidas – mesmo que por [ilustre] via de Elton Medeiros, Chico Buarque ou Luiz Carlos da Vila – que, estivessem vivos hoje, Chico Alves e Mario Reis já o teriam gravado.
Ao mesmo tempo, numa época em que, em mãos alheias, a música parece encolher para dar lugar a línguas foragidas de Babel, como o funk, o rap e a eletro-pancadaria, Moyseis canta valores como cozinhas ladrilhadas, pinga para o santo e feijão para os amigos – como em “Panos e planos” [dele, em parceria com Luiz Carlos Máximo]. Anacrônico? Não. No plano do samba, o tempo não passa e certos valores são constantes. E quando alguns, de repente, dão as costas ao Rio pelos mercados de fora, Moyseis toma o metrô para Vicente de Carvalho e vê pela janela o desfile de ases e coringas do Carnaval: “Surgiram novos cantores/ Poetas, compositores/ Alunos, professores/ De bar, de criação/ Que esplendor!” – como em “Cartas de metrô”, sua réplica ao fabuloso “Subúrbio”, de Chico Buarque, que ele também canta aqui e, no mano a mano, vê-se que a sua não fica a dever à viagem de trem do mestre. Não há bairro do Rio que não tenha suas próprias reservas de samba, e sábio será quem levar sua música para se abastecer delas.
**Ruy Castro é autor de Carmen – Uma biografia (a vida de Carmen Miranda), Chega de saudade (sobre a Bossa Nova) e muitos outros livros, quase todos pela Companhia das Letras.
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